
Essa fotografia é Ayólùwa, criança, no quintal de casa, segurando um galo nos braços. Nada ali é pose. É presença.
Ayólùwa tem por volta de quatro anos. Está no território mais íntimo que existe: o quintal, esse espaço entre dentro e fora, onde o mundo começa a ser entendido pelo corpo. E o que ela segura não é só um animal. É um galo. E o galo, dentro das cosmologias africanas, é caminho, aviso, anúncio. É Exu.
Eu costumo dizer que a criança é o ser mais próximo do galo. Porque o galo não tem hora pra cantar. Ele canta fora de tempo, canta errado, canta mesmo quando ninguém quer ouvir. A criança também. A criança gargalha no silêncio, chora sem pedir licença, atravessa a ordem com o corpo. O galo é caos dentro da ordem. A criança também é.
Pensar enquanto galo é entender que viver é barulho. É anúncio sem pedido. O galo não pede permissão para existir. Ele anuncia a transformação mesmo quando ninguém acredita. Ele rasga a calma, acorda o escuro, chama o dia sabendo que o dia também vai morrer. O galo sabe que tudo é passagem.
E a criança sabe antes de todo mundo.
A criança não precisa ver pra acreditar. Ela sente. Ela confia. Ela se joga. É por isso que Exu caminha com ela. A criança não tem medo de portal. Ela atravessa. Não se assusta com o invisível porque ainda não aprendeu a duvidar. O mundo ainda não apagou dela a coragem de brincar com o mistério.
Enquanto os adultos esperam confirmação, lógica e segurança, a criança já foi pelo caminho torto. Já dançou com o medo. Já pegou na mão do impossível e chamou de amigo. Ela não precisa entender tudo. Ela escuta. E isso basta. Porque Exu não fala com quem quer certeza. Ele fala com quem sabe sentir.
Quando fotografei Ayólùwa com o galo nos braços, entendi na hora: aquela imagem não era só uma criança segurando um animal. Era uma conversa silenciosa entre dois mundos. Uma troca de olhares que dizia mais do que qualquer explicação poderia dar conta.
O que prende na imagem é o encontro dos olhares. Ayólùwa olha o galo como quem reconhece. O galo se deixa segurar. Ali acontece uma encruzilhada. A cena provoca pergunta. E Exu é isso: pergunta sem resposta fácil. Jogo. Riso no canto da boca.
Essa fotografia não entrega tudo. Ela planta. Planta curiosidade, planta dúvida, planta um tipo de conhecimento que não é racional. É sentido. É corpo.
Na filosofia africana, Exu é o movimento que faz o sentido surgir. Ele liga opostos. E é isso que essa imagem carrega: a força do galo, que é vigília, astúcia, anúncio; e a força da criança, que é encantamento, coragem e confiança. Eles se encontram no olho. E é ali que a imagem se abre pra quem olha.
Essa fotografia não é ilustrativa. Ela é filosófica. Ela não explica. Ela convoca. Ela exige presença.
Quando o galo canta, é a criança que ouve primeiro. Porque ela ainda reconhece o chamado. Ainda sabe que o canto é recado, passagem, começo.
E quando a criança se cala, tudo em volta começa a morrer devagar.
Por isso Exu protege as crianças. Não só as de idade, mas as de espírito. Porque são elas que mantêm a roda girando. São elas que lembram a gente de jogar mesmo sem garantia.
Essa imagem é isso: confiança sem ensaio. Vida sem manual. Axé em estado bruto
RONALD JOSE FRANCISCO DOS SANTOS, Brazil, Recife